Entre Parentes
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Shirley

Dever - o doce veneno de índio ser

Eu saio de casa mesmo que não seja uma oca tribal. Saio de casa mesmo não sendo uma oca. Vou dirigindo meu próprio carro. Não, não sou só mais um no trânsito, sou mais um índio motorizado a atrapalhar o desenvolvimento. Já que dizem ser o índio o entrave. Mesmo não sendo branco, eu vim registrar uns papeis. Mesmo não sendo branco, vim buscar o meu certificado. Mesmo não sendo branco, sou capaz de votar. Mesmo não sendo branco, tenho a capacidade de governar. Você algum dia já me perguntou o que eu sinto, o que eu quero e como quero? E para o povo? Eu sei que não aceitamos muitas coisas, mas nem por isso matamos, nem por isso negamos diálogo. Eu vivo além do que se espera, faço muito mais que cuidar das terras da união. Eu tenho saberes únicos, de valor universal. Eu tenho sim que reconhecer que nada será como antes. Eu vejo e explico, parentes são mesmo assim; têm querer, têm poder e tem quem siga seu próprio rumo, por mais condenável que se julgue ser. Tem índio de todo jeito. Sinto muito em lhe dizer, mas nossas frustrações se cruzam no mesmo caminho e logo adiante acabamos frente a frente. Seguiremos agarrando as coisas uns dos outros, seguindo nos caminhos já percorridos, apagando os rastros, desmontando as coisas. Uma mescla resistida e maliciosamente concebida. Há uma dor na alma, bem maior que as dores que o corpo sente. Dor da alma, o equilíbrio das forças, mais perto dos espíritos. Aos nossos pés a natureza se cansa. Não temos mesmo olhado para os animais. Para as plantas como plantas, para o rio como rio.  Nossos ethos se alinham e pode mesmo a ignorância acelerar o final. Podia ser diferente, sem humilhar, sem sentir no dever o doce veneno de índio ser.  

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