Entre Parentes
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Shirley

Entre Parentes

Parece sem sentido o ato voluntário de escrever. Escrever a quem e para quê? Escrever aos parentes para falar de um mundo amplo, tão amplo que não cabe nos olhos vivos, languidamente desenhados, tristemente desviados. Escrever com gosto, com cheiro forte, sobre um diálogo apimentado em um espaço vasto, tão vasto que arrodeia toda a nossa existência e, se deixarmos, pode mesmo nos engolir como aquele peixe grande.

 

É VERDADE TODA ESSA MENTIRA

Foto: Jorge Macedo.

Menino, aqui sou eu que falo, mas quase ninguém me ouve. Ainda bem. Um pobre, podre numa terra de diabos. Cuidado! Não pise aí e não levante muito o braço, lá em cima tem marimbondo. Sangra em ódio o boi que morre de olho aberto. Tudo cheira a sangue, lama e bosta. Deuses encurralados pela benevolência em deixar livre. Tomam de conta como se pudessem. Não brinquem, isso é sério. Não briguem, isso não é sério. O mundo tem pena de morte e peixe sabe que é peixe, embora tenha sido e é outros seres. Nem sei porque falo sobre isso, mas sobre o que mais pode falar um velho senão mostrar e rir de como eles fazem exatamente assim. Tudo tão nítido. A arte eleva a um estado indescritível de além e te repousa no jardim secreto da plenitude. Um reino sem sábio e, continua, a vida. A natureza toma de volta, a terra testemunha.  É abril e floram os ipês no jardim de Makunaima.   

CUNHANTÃ

Queria apenas correr pelo campo, ainda cedo, sem hora pra nada. Sair sem roteiro, sem ninguém pra vigiar, sem ninguém pra me atacar. Queria correr menina, criança somente, sem despertar malícia. Sair menina, voltar mais viva e mais menina. Não ser vítima de ser mulher. Queria sentir o tempo passar de mansinho, e que toda a beleza fosse da cor de um passarinho. A água que brilha minha pele é da natureza. É da natureza ter beleza em tudo.  Juventude, sagrada e segredo. Queria estar com a mãe, com as tias, tão carinhosas em sombras fartas, aprendendo a ganhar tempo, protegida. Ver as mãos habilidosas, ver as frases de poder. Ouvir a língua, praticar esse saber. Queria ter a sensação de paz, de plenitude, de não ser rotulada ou cobrada. Sem medo de ser, sem medo de estar, sem pertencer, só por gostar. Queria viver naquele tempo, para onde me transporto e onde tão bem vivo quando me contas.

Diversidade, fartura e partilha

Somos todos irmãos. Se nos dividimos, quanto mais ricos ficamos, empobrecemos. Salve o alimento de todos os dias, salve a natureza, absoluta mãe de toda a sabedoria. Me ofereces água mas o que eu tenho é fome. Mas, tudo passa se eu te tenho à mão. Caminhos como labirintos, em terra de muitos deuses, somos andarilhos. Eu, você, o outro, o além. A aventura de não aceitar que a Terra impõe limites. Estamos entrelaçados e, na minha boca, há de faltar do teu excesso. 

Despe-te de vaidades, vê-te nu e vai.

Na tarde quente da sombra dessa mangueira, sujeito, indo com a eterna transformação. Vivo pensando em como viver, em como saber o que é ser gente. Caminhando entre meus rastros, lidando com a vida do meu jeito. Eu, meu corpo e minha alma, algo que não tem fim. Sou parte de tudo o que não pertenço e ninguém me proíbe ser beleza, foi ela quem escolheu. Juntos, somos milhões, mas a célula que faz mais falta é a tua quando morres. Um sistema que não se abala com a maior das emoções. Para onde vais depois daqui; por onde já estiveste? Almas em composição, criando a infinita teia da sucessão. Na maior das insignificâncias, para onde levar minha razão se tudo é novo, é velho e se repete? Não há mais fé. Não há fé, nem justiça, nem comida, nem amor, nem água. Despe-te de vaidades, vê-te nu e vai. 

Obras