Entre Parentes
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Shirley

Entre Parentes

Parece sem sentido o ato voluntário de escrever. Escrever a quem e para quê? Escrever aos parentes para falar de um mundo amplo, tão amplo que não cabe nos olhos vivos, languidamente desenhados, tristemente desviados. Escrever com gosto, com cheiro forte, sobre um diálogo apimentado em um espaço vasto, tão vasto que arrodeia toda a nossa existência e, se deixarmos, pode mesmo nos engolir como aquele peixe grande.

 

A bravura que assusta

Parentes, não sou eu a falar, apenas tento mostrar o evidente.  A história ao nosso redor parece ter mudado radicalmente; tudo mudou, melhorou, evoluiu. Apenas a nossa figura, digo, a figura do indígena parece ter sido deixada em um ponto fixo, imutável, estática por séculos e, de propósito, por pura maldade. O ponto fixo de que falo é quase um lugar comum, no qual o nativo foi estacionado e dali idealizado como algo a ser modelado segundo critérios escusos. O primeiro grande ponto, o que mais pesa e magoa, tem o efeito do prego na mão de Jesus Cristo, pregando firmemente o homem na cruz. Esse prego fixador é a condição de incapacidade atribuída e legitimada por meio da tutela. Outro limitador da vida plena e em abundância foi o corte rasteiro que o Brasil e o cristianismo deram nas populações nativas, ou seja, negar a capacidade, aos nossos ancestrais, de obedecer à lei da natureza, transmitida no silêncio, na voz dos próprios deuses. Sem saber, sem ter a quem recorrer, tiram-lhe a terra e dão à União, um ser desconhecido mas avassalador. Me parece que, de todas as heranças, o que mais nos ajuda é a paciência, a tolerância, o respeito e a negação de um sentimento de vingança. Mas espera um pouco, isso nos ajuda ou nos atrapalha? Desconfio que nos atrapalha,  pois, é evidente, quando um indígena ousa sair do ponto morto a que foi obrigado a estar, esse ser selvagem, pagão e incapaz, é uma caça, um bicho perigoso que pode fácil e rapidamente botar a manada não mais no mato, mas na mesa, na qual não havia mais lugar nenhum a ocupar.  

Mulheres indígenas no século XXI

Nós, homens, não podemos imaginar o que se passa a cantar na voz dessas mulheres. Mulheres indígenas que, frágeis, periféricas, são barreiras protetoras da cultura, de seus filhos e maridos. Mas, é só isso o mundo de uma mulher indígena? Não e não deve caber numa noite só de angústia, a moldura da vida de uma mulher indígena, no agora. Sair de casa e cair em um mundo para o qual não foi preparada e, por força, ser engolida. Essa casa é a comunidade, a vida na natureza. Mesmo na mais remota floresta, entre as mulheres indígenas “brabas” das tribos “isoladas”, na rede, a mãe pesarosa não consegue mais esquecer que sabe de nós, de como somos e no que vai dar. A preocupação com o futuro de sua geração no fim é igual. Mesmo porque corre nos rios a imundície, o cheiro da tragédia dessa civilização; o dia a dia, o contato com toda a violência. Como pode um coração suportar a dor de perder um mundo encaixotando-se em um bairro de periferia? Ou estar na comunidade e já não ter a mesma natureza? Para todos os lados há um efeito compressor, uma força maior, muito poderosa. A opressão imprime sua força e é bem diferente do abraço de uma sucuri. A pobreza verdadeira vista de dentro. A falta de higiene. A  indignidade de ter que passar por caboquinha quando na verdade é uma linda mulher, nativa de uma terra que hoje chama-se, quase sem orgulho, Roraima. Uma fotografia de arte pura, real, natureza viva, vulnerável e solitária. Mas visto que esse tempo acelerou, a mulher indígena sobreviveu, mudou e, por outro lado, engrandeceu-se. Mas não se vai muito longe o estado de graça desse ser fenomenal. Logo se houve o grito de mais uma agressão. Do nosso lado, em um bar pé sujo, no Senado Federal, em qualquer lugar, a toda hora. Imagine que essa vida é real.  

O que não pertence a ninguém

Ver apagarem teus rastros e ainda te pedirem indiferença. Não dá Doutor, não há como. Bem sabes a lamúria de um derrotado, mas a dominação sem batalha não está nos manuais. Só aqui as mangueiras têm essa cor, essa copa corpulenta que, somado às baixas e caimbezais, completa a paisagem na sombra do barracão. Tudo brilha e treme. Corre acelerado o tempo da minha razão. À noite, quando tudo para e fica só o vazio do sono, uma espécie de adeus vem te cobrar. Aí, já não é mais fantasia. Eu quero ver, quero sentir. Me leva para ver minha paisagem preferida. Eu voltei. Também não sou mais o mesmo, mas esse lugar diz muito sobre nós. Preserve ao menos essa cachoeira. Ela não é de ninguém.

O Nosso Tempo

O efeito dos anos em nosso tempo é contínuo e avassalador. A humanidade distribui-se sobre a terra sem qualquer limite. Hoje, tudo é habitável e, mesmo onde não se alcança, tem ali o seu efeito. A paisagem rejeita a nova fisionomia, mas o novo clima dita a ordem recebida; extinção ao que não logrou adaptar-se. Para o mundo das ciências, não vale a sabedoria. Basta força e poder bélico; poder de desafiar teimosamente. Mais perto do fim, dizem os filósofos solitários, abafados pela gritaria de felicidade das festas de ano novo. É dormindo, sem memória recente, que desperta o ente, na lenta manhã do novo ano. A magia, o ar, a aura é de felicidade; os aromas de verão marcam profundamente a passagem de dias felizes. Mas é a felicidade uma sensação tão instantânea que o exato momento de ser percebida é tudo. Longos ou curtos, os dias que temos são fundamentais para se deixar um breve lapso nesse tempo que foge nos levando junto.

Seja feliz em 2015!  

  

A nossa vez

A nossa vez

Pela janela vemos quem somos, no escuro, pelo espelho. Dentro dos nossos olhos há

uma mina de verdades. Nem as lágrimas embaçam essa visão interior. Um fundo tão

íntimo que nem a nós cabe invadir. No meu terreiro há um estranho. Estranho também

lhe sou. Depois que tudo freou e o ócio de fato veio, nem a rede segurou a agonia. Há

algo a faltar, algo que nunca vem, mas há de chegar. Hoje, lido com essas letras que

me fascinam e metem medo. Há sim o que contar. A história vai aumentar. Esperamos

fielmente a nossa vez, amolecendo o barro nos barracões, madrugando na chuva nos

currais. Sendo pleno e absoluto, sofrendo com o vizinho sob o açoite. Tudo tão

comum como se do tempo fosse. Nós, sentados, esperando nossa vez. Sobrenatural,

ocupando o mesmo lugar dos ancestrais, sob a guarda, recebendo todo tipo de

influência. Lua após lua, a pele curtiu. O tempo mudou radicalmente. Parece que

chegou a nossa vez.

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