Entre Parentes
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Shirley

Entre Parentes

Parece sem sentido o ato voluntário de escrever. Escrever a quem e para quê? Escrever aos parentes para falar de um mundo amplo, tão amplo que não cabe nos olhos vivos, languidamente desenhados, tristemente desviados. Escrever com gosto, com cheiro forte, sobre um diálogo apimentado em um espaço vasto, tão vasto que arrodeia toda a nossa existência e, se deixarmos, pode mesmo nos engolir como aquele peixe grande.

 

Salvem a floresta e os espíritos; os homens não voltam iguais.

É do homem, a consciência sobre sua biologia. É do homem, a consciência sobre a sua psique. É do homem, a emoção, a negação e até a razão. É do homem, fluir no tempo, adaptar-se. É do homem, a guerra e a autodestruição. É do homem, enganar-se, perder-se, não ver os caminhos. A vida dos povos da floresta, no seu estado da arte, foi possível por muito tempo, mas, agora, aos nossos olhos, tudo muda; é mudado em ângulo agudo e todas as coordenadas agora são outras. A mudança encurrala os últimos seres humanos que habitam a floresta chamada Amazônia. É 2014 e, como os navios que chegaram há mais de cinco séculos,  drones aportam na última praia ’selvagem’ do mundo fantástico do Eldorado. Uma terra nasce e morre pela mesma promessa! 

A IMPORTÂNCIA DO LÍDER E DOS MAIS EXPERIENTES

Em todas as culturas e sociedades, as figuras dos líderes e dos mais experientes são fundamentais para garantir a sobrevivência coletiva e a contínua adaptação das pessoas ao meio que ocupam. Basicamente, a relação do homem com o meio é, num primeiro momento, individualizada. Cada ser humano tem uma forma muito particular de ver, pensar e interagir; o indivíduo pode escolher como e em que nível quer se relacionar, mesmo sabendo que faz parte de um grupo social maior e com relações e exigências muito mais complexas.

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A arte da espreita

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Foto: Dayana Soares A. Paes. 2014 Acervo: Pitzer College/UFRR/Galeria Jaider Esbell

A espreita é um recurso político de comunicação estratégica no estado arte. Estar à espreita é um momento de vigilância, um tempo para pensar e elaborar uma proposta de sobrevivência. Chegamos mais do nunca perto de um momento crítico de nossa odisseia no espaço. Vamos ver o mundo ser sacudido como que para tirar todos os habitantes da floresta, sem ficar nenhum, tal as máquinas fazem com as laranjeiras na colheita. O fim de todo um ciclo biológico e filosófico. Tudo parece muito complexo, mas, desenhando é mais fácil. Tudo passa pela paisagem. Tudo mudando, mas ninguém vê. Ninguém olha pela janela enquanto tudo muda para sempre. Uma civilização caminhando para mais um colapso e indo para outra condição. Não, não é exatamente o fim para todos, talvez para a maioria. Todos os Xamãs de todos os tempos já falam isso. Todos os líderes, mestres e poetas diziam a mesma coisa. E as coisas vão acontecendo cada vez mais rápido. Estar à espreita é, sim, um estado de guerra, de tensão milenar. A destreza do homem em conhecer muito bem o outro, a natureza humana é a razão. Tão completa é a espreita que também lhe cabe o esperar por isso, o quase inconcebível esperançoso. Estar à espreita é se dar bem com o tempo e acreditar que dá pra ser feliz antes do próximo ato.

QUASE UMA LENDA URBANA!

Transita quase invisível no centro da cidade o neto do grande guerreiro, parecendo uma lenda urbana. O parente, andando pela cidade, estranha e, estranhando, causa estranhamento. Muitos dizem que índios e cidades são coisas que não combinam e param aí, neste exato ponto; não levam à diante o assunto, como algo realmente improvável e, de certa forma, proibido. Mas os parentes continuam andando pelas ruas, procurando como todo mundo, as coisas maravilhosas que a modernidade garante só existirem aqui, no asfalto escaldante, que leva à porta dos prédios espelhados escondidos em papeis, burocracia ou voando nas ondas da comunicação digital. Todos os dias é possível ver os parentes andando em família pelas ruas. De certa forma, sobrevivem a cada passeio como se andassem em caminhos ancestrais, obstruídos pelo corpo da cidade, mas identificáveis pela aguçada percepção do nativo em cada sobra de chão. Para quem está de fora e nada sabe apenas vê mas não sente essa emoção. Tudo parece desnecessário, cruel e de simples solução, como escolher não vir para cá, não sair da aldeia, onde toda a felicidade parece estar. Não, não! Tudo vem de muito tempo e qualquer forma simples de tentar explicar é mais um passo atrás na desvantagem de tudo querer comparar, justificar, resolver, amenizar. Andar nas ruas é um ato de resistência e, para os parentes, muitas das vezes é a única forma de ser visto, de ver, de visitar o ente querido ferido, acometido de todo o mal que há no mundo. Andar pelas ruas das cidades com seus produtos à venda, perseguindo aos seus modos um espaço para existir sem vender-se ou vandalizar-se, marginalizando-se na margem oposta. Andar pelas ruas das cidades, batendo palmas nas casas, clamando por misericórdia ou mais uma dose desse vício que pegou a todos chamado consumo. Andar pelas ruas das cidades, cruzando com gente de toda sorte, ouvindo palavras que não alegram, que não são ditas ao pior dos animais. Andar pelas ruas da cidade e ver outros parentes, trocar com eles as energias, reavivar os saberes sem pressa nas casas coletivas, onde as angústias e as dores se dissipam cedendo um pouco à felicidade. Desde o começo, quando a menor das vilas ribeirinhas se formou, o parente esteve presente em tudo. Várias gerações de parentes ajudaram a construir tudo o que hoje existe e foram eles que, mesmo contrariados, ajudaram os Karaiwas, que nada sabiam sobre a magia de viver nas beiras desses rios. A cidade repousa em terras sagradas, não por esses valores de hoje, que vieram com os novos ocupantes, com os novos donos. A cidade guarda sob seu corpo os ossos dos grandes Xamãs. Os mesmos que ainda hoje guiam os seus descendentes, andarilhos da eternidade. Quase uma lenda urbana! O índio na cidade é estranho como se mesmo fosse. A cidade para o índio tem o mesmo mistério que para qualquer outro ser. A cidade para o índio é excludente como para qualquer outro ser. A cidade para o índio é fascinante como para qualquer outro ser. Na cidade, como na floresta, tem de tudo, na mesma medida. Até gente sem entender nada de fantasia, que deixa passar a magia que nos cerca por todos os lados.

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