Entre Parentes
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Shirley

Entre Parentes

Parece sem sentido o ato voluntário de escrever. Escrever a quem e para quê? Escrever aos parentes para falar de um mundo amplo, tão amplo que não cabe nos olhos vivos, languidamente desenhados, tristemente desviados. Escrever com gosto, com cheiro forte, sobre um diálogo apimentado em um espaço vasto, tão vasto que arrodeia toda a nossa existência e, se deixarmos, pode mesmo nos engolir como aquele peixe grande.

 

VIZINHOS

Nesta edição, a coluna vai tratar de um assunto que estará para sempre em nossa vida, nossos vizinhos ou nossas relações de vizinhança em amplos aspectos. Vizinho é um termo usado para se referir a algo ou alguém que influencia e é influenciado simultaneamente no fluir do tempo e na inexatidão das coisas que estão por ser explicadas. Vizinho é e não é uma pessoa, é e não é um lugar ou uma fonte de energia. Vizinho é alguém que não se escolhe, é algo em que você está ligado por razões que não nos cabe o controle ou a razão. O termo vizinho passeia o tempo todo entre os parentes, como sujeito e adjetivo, e essa dupla identidade se firma na complexidade da conexão dos sentidos. Aqui, vamos falar um pouco de nós; de como esses relacionamentos com o outro e com o tempo nos trouxeram para os dias atuais. Podemos, também, ver e sentir os traços de nossa influência nas vidas dos que nos rodeiam ou dos que rodeamos. Sabemos que cercamos e que estamos cercados por outros seres, que eles habitam além de nosso imaginário a paisagem comum e outros mundos paralelos. Acreditamos que somos visitados e que todos esses vizinhos chegam a nós de alguma forma; que vêm e voltam como em um ciclo, e nós a ales. Nós parentes acreditamos que nossos vizinhos estão bem perto, invisíveis ou reais, com corpos e formas, mas tão fantásticos a ponto de fluírem em metamorfose. E pensando bem, quem é mesmo nosso vizinho e o que somos um para o outro?

ESPAÇO E TEMPO

Com o tempo, tudo muda. Nesse espaço, nada mais terá que lembrança, fragmentos e resquícios, que dialogam quase silentes. Mas, há coisas. A maioria das coisas permanece reverberando, agindo eternamente, como a eterna fonte de tudo. Talvez, o nosso tempo, a nossa vida cotidiana, seja o momento vivo, o sublime, no qual tudo isso se configura, se corporifica. É para aí, onde o efeito do tempo, do ato de todos os homens, frutos de pensamentos e desejos,   convergem. Isso mesmo, nosso fazer; o produto do que somos, o que nos tornamos; nossas características, nossa identidade cultural; nossa cara transitando no mosaico da diversidade. O que pode fazer de nós as nossas relações multilaterais? Antes, os nossos antepassados viviam em outras circunstâncias, tinham outras formas de se relacionar com o tempo, com os demais seres, bichos, com os outros parentes e com o sobrenatural. Mas, houve um ponto no tempo, uma hora exata de acontecer um fato novo, desses que mudam profundamente o rumo das coisas. Chegou um homem pelo rio, veio de canoa, o primeiro, como se fosse o único e quisesse ser um igual a nós. Com alguns parentes, foi visto do alto do barranco, com toda a clarividência que anunciavam os pajés em seus clamores.  Prelúdio das grandes mudanças.  

AS DESPEDIDAS

A identidade do povo roraimense está enraizada nos pés dessas serras, pois passa obrigatoriamente pela nossa ancenstralidade. Mais além, por detrás desse cenário compartilhado, tem uma geografia e uma história próprias, anterior a tudo isso, fundada em sua própria origem. A antiga história está nos mitos, nas lendas, nas gravuras das pedras. A antiga geografia está nos rastros, nos limites, nas alianças e guerras, na rugosidade da paisagem. A geografia e a história antigas foram formadas a partir de um mesmo saber; o respeito absoluto por tudo. As leis da vida e da boa convivência eram seguidas e ensinadas continuamente. A relação dos antigos com a terra era como a relação entre deuses e tementes. Por muito tempo, foi assim e, por muito tempo, continuaria a ser, não fosse a trajetória que nos levou em outro rumo. A nova história e geografia são frutos do caos e, por toda a vastidão destes campos, não há mais qualquer limite. Hoje está muito mais entrelaçada a teia da nossa tramitação. Mas, é no caos da modernidade, no bojo de tudo que se diz novo e avançado, que uma nova consciência resurge de si própria, manifestada espontaneamente entre seus esteios, entre aqueles que carregam o âmago. De um modo ou de outro, houve tanta mistura, mas acabamos separados por nossas origens e culturas. Tudo parece  misturado, até homogêneo, em numa relação de vizinhança, e, na mesma medida, distinto, embora teimem em falar de uma convivência pacífica. É legítimo perceber, razoável aceitar, que, no caminhar da humanidade, é pela raiz que vêm as substâncias. 

OS ENCONTROS

Assim foi como tudo aconteceu e em toda a beira desse rio a história já era outra. Mudou também a paisagem. Mudaram os seres fantásticos. Os bichos foram tangidos para mais além. Mudou para sempre aquela aura de equilíbrio, de intimidade com tudo, de senhor de todos as manhas e costumes. Agora, o vizinho, a vizinhança, mudava constantemente. Uma nova e definitiva teia se formava. Respeitando malmente as chuvas torrenciais de junho, o contato entre esses povos se acentuava, a mistura acontecia. Tudo mudou drasticamente desde então. Todos os conceitos foram ampliados e a relação vizinho/vizinhança ganhou outro sentido. Estava um tempo tenso, incerto; teve um tempo fúnebre, cruel. A hostilidade parecia uma defesa, uma resistência à mudança repentina e absoluta. Um vizinho desconhecido, não mais como os parentes das gerações passadas, que conviviam há tanto tempo. Aconteceu o inevitável enquanto o tempo corria costurando tudo. Correu como sabemos, como ouvimos falar, como imaginamos. O silêncio ganhou outro sentido, outra aplicação. O que ficou desse tempo foi uma rica memória que pulula, viva, entre os viventes atuais. As tramas, os desfechos, as composições, os tratos, são boatos, estórias do imaginário, coisas de vizinhos. Outros dizem que tudo foi um grande romance, mais uma façanha do deus Makunaima, uma magia diante de nossos olhos.        

MEU VIZINHO KARAIWA

Um passeio breve no tempo e cá estamos nós, prontamente. A tarefa é escrever na história, deixar aos que virão um capítulo inédito, que fale sobre nossa ressituação. A nossa relação com o mundo mudou a partir de nós mesmos. Agora podemos dizer com toda a firmeza, não era oclusão o que queríamos; isso foi o que disseram de nós, ou o que restou a nós parecer. Tudo passou. O silêncio das vozes agora fica guardado na lembrança, no lado das coisas importantes de nossa trajetória. O homem solitário da canoa está por todo lado e seus descendentes compartilham conosco de todo o ar que nos cerca; estão em tudo, assim como nós também. Somos novamente vizinhos! Sempre o fomos, embora no desacerto das contas estivemos alheios; fomos vistos como avessos, estranhos em nosso próprio ninho. Demorou muitos anos, o custo foi muito alto e entre as serras e lavrados tem os fluxos dos rios carregando  os testemunhos. Ensinamos, aprendemos, trocamos malícias e ditamos nosso ritmo de viver e imaginar o futuro. Hoje, quando conferimos o panorama, sentimos falta de muitos. Povos inteiros se dispersaram, compondo, com tantos outros, a cara da mestiçagem. Não simples, mas houve o tempo de cada coisa. Hoje, somos nós a reorganizar as coisas; eu com os meus, vocês com os seus, todos juntos, interagindo. Parte de nós, na direção do outro, o convite a um diálogo, livre e sem precedentes, entre índios e karaiwas.

Obras