Entre Parentes
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Shirley

Entre Parentes

Parece sem sentido o ato voluntário de escrever. Escrever a quem e para quê? Escrever aos parentes para falar de um mundo amplo, tão amplo que não cabe nos olhos vivos, languidamente desenhados, tristemente desviados. Escrever com gosto, com cheiro forte, sobre um diálogo apimentado em um espaço vasto, tão vasto que arrodeia toda a nossa existência e, se deixarmos, pode mesmo nos engolir como aquele peixe grande.

 

Projeto Anna Eserenka - Grupo Cruviana

Instituto Insikiran - UFRR 

CRUVIANA CHAMA MENINOS DO INSIKIRAN PRA CANTAR

 

É bom lembrar: INSIKIRAN é um menino deus, neto de MAKUNAIMA; CRUVIANA, a deusa do vento, é prima de todos nós. Num tempo anterior, antes de tudo isso, tudo acontecia entre as serras e lavrados. Deuses e homens eram iguais. Hoje, tem de tudo e tudo está bastante misturado e moderno, mas nada tão moderno que não pudesse comportar esse tempo aqui e aquele lá. Insikiran, hoje, é também o Instituto de Formação Superior Indígena da UFRR e foi criado em 2001 a partir de uma demanda dos povos indígenas. O Instituto oferece ensino (superior), extensão e pesquisa diferenciados para atender expectativas dos povos indígenas em amplos aspectos. Durante todos esses anos, vários parentes passaram por lá. Contaram, cantaram, dançaram, trocaram saberes e estórias de vidas. Com o tempo, o perfil do aluno também mudou; depois de alunos adultos, a juventude indígena veio com tudo e inundou o Campus Paricarana com a magia da ancestralidade e a euforia de experimentar um novo mundo, quando Cruviana chama meninos do Insikiran para cantar. Foi assim que aconteceu: por meio de uma política pública do MEC para extensão universitária, professora e alunos inscreveram e aprovaram o Projeto Insikiran – Anna Eserenka, que dentre os produtos, surgiu o grupo musical Cruviana, do qual falaremos nesta edição da coluna. 

MÚSICA, PESQUISA, JUVENTUDE, LINGUA - LINGUAGEM e CONTEXTO

 

Incentivados por professores e coordenados por Ise de Goreth, diretora do Instituto Insikiran, os alunos assumiram o compromisso com o projeto de extensão, que teve a  música como linha central das atividades de pesquisa. A música indígena contemporânea e a paisagem do lugar. A música como linguagem, no contexto da pesquisa acadêmica, sendo produto de múltiplas influências e tempos, foi observada a partir de um espectro amplo, que envolve saberes milenares, organização social e cultura indígena contemporânea. O que quer dizer tudo isso? Para melhor entender, podemos observar essa sequência de ideias: música ancestral na cultura indígena - como é feita, quando é manifestada e que instrumentos musicais são utilizados; música entre os indígenas nos dias atuais - como está a cultura da música entre os povos indígenas, o que foi assimilado e adotado e como reflete-se na organização social e na vivência dos indígenas; música como tema de pesquisa e motivadora do diálogo entre gerações - como se desenha o futuro e a identidade indígena neste contexto, o que pensam e fazem os jovens indígenas em relação à música, o que conhecem e podem ensinar os antigos sobre os saberes musicais e sua relação com a natureza e a sociedade. Instrumentos musicais, estilos, composição de letras, o papel da música no contexto geral. Os diálogos, entendimentos e divergências que caracterizam a construção coletiva desse novo e próspero cenário multicultural.

O ACREDITAR, O AGIR, O ASSUMIR, O REALIZAR

Quando uma jornada se inicia, todo mundo deve ir junto. Com certeza, foi grande a experiência de um projeto de pesquisa com data para começar e terminar. Na exata medida para despertar, a música e a juventude cumpriram seu papel, com maestria, durante o ano de 2013. Ações práticas, coletivas e, sobretudo, voltadas para conectar o nosso tempo com o tempo de nossos ancestrais. Evidenciar o papel das ciências e das instituições de ensino por meio dos programas de extensão da UFRR. Insikiran e Cruviana reúnem todos os seus descendentes, os vizinhos antigos deles e os mais novos. É quando surge um mosaico vivo de diversidade. É quando um povo encontra novamente o rumo no meio de um turbilhão. É quando todo mundo se depara consigo mesmo e percebe seu todo movendo-se para frente. O projeto inicial vai ser concluído e um relatório final será gerado. Nesse ponto, fica o encontro da pesquisa e da vida. O grupo CRUVIANA existe e tem um trabalho de atuação voltado pra a reflexão crítica, a partir do pensar e buscar se expressar. O projeto termina, mas a vida segue melhor. Os estudantes pesquisadores vão concluir seus cursos. Os professores pesquisadores vão continuar suas pesquisas. Mas, é o povo que vivenciou. Como essa mobilização vai continuar repercutindo ativamente na sociedade? Eu digo que já está. O Grupo Cruviana, como a deusa, vai aonde quer; está solto no vento e vai viver para toda a eternidade conosco.            

A PESQUISA É A PROPRIA VIDA - O PROJETO ENTRE OS PARENTES

 

 Já não se sabia quando era pesquisa e quando era vida fluindo naturalmente.

Com instrumentos musicais novinhos, adquiridos com o projeto de extensão, os jovens  pesquisadores indígenas entram na sintonia dos sons ancestrais, estimulando um despertar coletivo. Da sala de aula, pulam no meio do terreiro e trazem um som em tom de diálogo. Tocam e falam de um espaço atual. Ouvem o som dos antigos, o som da referência coletiva, do sentido de origem e trajetória. Já, nas oficinas, as gerações se misturam e se confundem no mesmo encantamento. Do fazer e avivar uma memória coletiva enquanto as folhas dos buritizeiros balançam continuamente. Vivendo nesse tempo e cadenciados por uma energia que busca expandir-se por uma força própria e bem mais estimulada quando encontra filões na juventude. Toda a comunidade envolveu-se, no seu tempo e na sua medida. Saberes foram partilhados mais intensamente e entre a pesquisa e a vida já não tinha qualquer diferença. A escola, a vida como era antigamente, tudo tão perto e acessível. O saber como uma semente guardada sobre as chamas, no calor da fumaça. A grande volta ao redor de tudo. A grande roda que se forma em volta do som de um povo que se reconhece.  

QUEM SÃO OS ARTISTAS PESQUISADORES E QUEM APOIA?

A Professora Ise de Goreth é a coordenadora do projeto de extensão universitária. O projeto foi uma realização compartilhada com a comunidade e as escolas. Muitas pessoas apoiaram e participaram diretamente do projeto. Os estudantes são indígenas dos cursos regulares e do Instituto Insikiran e pertencem a diferentes etnias. O Grupo toca músicas tradicionais e forró contemporâneo, com letras que destacam as lutas e a cultura dos povos indígenas. Os Parentes mantém o grupo enquanto estudantes e fora do campus. Tocam em festas e eventos do movimento indígena e para convidados, voluntariamente.    

Estes são os alunos pesquisadores: Dalisneto Alexandre da Silva, Elder Silva Marques, Fonsimario dos Santos, Jucilene Carneiro de Lima, Marcos Maciel Lima Cunha, Marcos Silva de Souza eReinaldo da Silva Oliveira. Na internet, você pode iniciar um papo com o grupo por meio deste link: www.facebook.com/cruviana.anaeserenka.  

Obras