Entre Parentes
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Shirley

Entre Parentes

Parece sem sentido o ato voluntário de escrever. Escrever a quem e para quê? Escrever aos parentes para falar de um mundo amplo, tão amplo que não cabe nos olhos vivos, languidamente desenhados, tristemente desviados. Escrever com gosto, com cheiro forte, sobre um diálogo apimentado em um espaço vasto, tão vasto que arrodeia toda a nossa existência e, se deixarmos, pode mesmo nos engolir como aquele peixe grande.

 

A ARTE COM OS PARENTES!

A arte indígena contemporânea é a reafirmação da ancestralidade traduzida em conquistas e novas lutas por direito à vida plena aos povos originários. Antes que tudo vá definitivamente para o mundo dos espíritos, eles vêm nos visitar, todos.

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Comunidade indígena Maturuca, Região das Serras, Terra Indígena Raposa Serra do Sol, Município de Uiramutã, Estado de Roraima, Brasil.

Eu sou Jaider Esbell, tenho 36 anos e sou artista indígena da etnia Macuxi. Hoje é um dia muito importante para a escola indígena José Alamano, para a comunidade de Maturuca, para os alunos, para os pais, para a região das serras, para o movimento indígena brasileiro, para os nossos ancestrais junto com Deuses e Makunaima.

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É tempo de plantar

Não tem como um povo em guerra viver em paz a cultura, na plenitude. Sim, é cultura o que se consegue viver, mas falo da referência, da fonte, o que para o indígena está condicionado à reconquista do território ancestral. Há um poço, uma ancora, nos tempos imemoriais, mas o saber está distribuído, está vivo. Muito já não se usa, mas tem os seus porquês e os lugares secretos lhe guardam. Valores incorporados se justificam. A comunidade parece garantia, mas a cidade tem suas comunidades avulsas. Deriva daí toda a nossa perspectiva contemporânea, individual e coletiva. Sabemos das fatias que mosaicam o panorama das realidades indígenas no Brasil e no mundo. Queremos garantir nosso futuro, nosso ponto de existência na diversidade. Esse ato é mais um de milhões; contatos, diálogos e resistências. Não só isso, esse momento em especial para os parentes com territórios demarcados e homologados é um momento de decantação. Uma pausa momentânea na luta eterna por dignidade. Esse tempo ainda não é o tempo de colher; é o tempo de plantar.  Há de se sentar em rodas e mergulhar profundo na ancestralidade. Emergir cheio de vida, orgulho, identidade e vontade. Talvez seja a nossa vez. A disposição em colaborar mais com o mundo, com nós mesmos. Entre vigiar e deleitar-se no que antes não podia. O saber é o maior dos patrimônios. O instante do mestre verter o que se aperfeiçoa há milênios. A arte pode ajudar. Mas isso é só um momento, uma estratégia para dizer a mesma coisa, de outro jeito. É grande e grandioso o mundo cruel descortinado. Alcoolismo, químicos, desespero. Há um estado de transe, nas ruas e comunidades, e esse inimigo silencioso logra sua horda. Não desafia, investe certeiro. Quer as crianças, a juventude, as mulheres. Quer acabar com tudo, desestruturar, por filhos longe dos pais. É nesse meio, nessa metade de tudo, que as celebrações acontecem, persistem. A arte vale tanto quanto presente maior de Deus. Salve os que se confraternizam em alegria. Na outra ponta, miséria e tragédia afastam e reúnem. Nossas vidas dependem do Brasil, mas ele não depende de nós. A certeza é que tudo muda e aqueles dias perfeitos se vão pra memória, logo, pra sempre. Há os becos, as reentrâncias, a malandragem que domina, impera no mundo onde tudo sobrevive aglutinado. Estamos na Amazônia, perto de todos os remédios, sujeitos a todos os venenos. Mitos e lendas urbanas, guetos e vícios comuns. Poluição e mais uma notícia ruim. Assim vivem nossos povos, múltiplos. Um corpo só, visto de fora, de dentro, a natureza humana. Deixe a mulher ir pra escola, ela já foi pra roça, teus filhos estão criados e a comida está na mesa.       

O balanço, o pula corda e a fogueira no centro de tudo

Coisas martelam meu juízo de índio caminhante. Vou, e você também, atravessando igarapés com água nos peitos convidando a desistir. E o que tem além, lá para baixo, onde essa força teimosa quer nos empurrar? Não quero ir. Quero uma vida de balanço, que possa ir e voltar na hora exata. Quero as mesmas estórias, nas quais jabutis enganam onças só de brincadeirinha; saber e força se unem pra entreter, pra ensinar o pulo da corda das mais bonitas armadilhas. Quero estar com os meus, envoltos, em volta da fogueira na dobra do rio com os joelhos dobrados. Minha cara arde nesse fogo e minha pele estica. A cruviana passa no agouro da rasga mortalha.  Estrelas cruzam o céu, mais uma vez, e como é bom. E vem a manhã, e nossa fábula destoa nesse mundo sem bordas. Ah, meu pé de jenipapo, com suas flores tão cálidas, amarelas, brilhando nesse verde prateado. Ah, meu curumim, meu tudo ser, meu existir. Venha, deleita meu peito, beba desse leite terra, desse doce barro, puro de fazer-se eterno. 

TOMARA QUE EU GANHE!

Não há de se complicar o que é feito de simplicidade. Cotidiano de plantar e colher entre o deleite de esperar, na sombra, uma fruta que vai cair na rede. Espírito manso. Coração não tem osso e a maldade também busca parecer simples. Uma dor que você nutre, sabendo, nada muda além do ver. Mistura de gente e sentidos, convulsão abaixo dos escombros da terra que treme pressionada. Um mar de gente, correntezas misturando tudo e ainda se espera achar a tradição. Culturas soam absurdas num todo descontruído. Momento de pensar profundo. A farra logo termina e tem de haver um recomeço. Uma senha para a criança; por favor, para o velho. A juventude não pode esperar.  

Obras