Vice & Versa
Open Panel
Shirley

Rodrigo Carvalho

A nossa Vice-Versa desta semana, traz uma entrevista com Rodrigo Carvalho. Desde os 13 anos de idade, até hoje, permanece envolvido com o jiu-jítsu, modalidade esportiva que, em 2001, o consagrou como o primeiro roraimense campeão mundial. Ele é formado em Fisioterapia, com especialização em UTI Neonatal e Pediátrica, pelo CEUB (Centro Universitário de Brasília), onde participou de importante projeto social, e no jiu-jitsu sua formação é faixa preta segundo grau. Desde 2009 reside no Canadá, onde administra duas empresas.

O que o esporte mudou em sua vida?

O esporte me ensinou muito cedo que, para ser bem sucedido eu teria que dar o meu máximo, teria que ter foco e procurar usar todas as minhas qualidades para ser o melhor. O esporte me fez entender que toda derrota pode ser passageira e que nenhuma vitória irá ser eterna.  Comecei a aplicar esses conceitos em todas as áreas de minha vida e o resultado foi o sucesso. Hoje faço o que amo, vivo como quero e me considero um homem feliz. 

Como foi participar do projeto social Universidade Cidadã, na CEUB, em Brasília?

Foi um período de muito aprendizado e crescimento pessoal. Ministrei aula de jiu-jítsu em uma comunidade carente chamada Varjão. Essa experiência me fez entender de perto a pobreza brasileira e como o esporte pode mudar a direção na vida de uma pessoa. Aprendi muito mais do que ensinei. Conheci pessoas puramente verdadeiras e entendi o motivo de quanto menos você tem mais solidário você se torna. Hoje o projeto tem 11 anos e está sendo dirigido pelos meus alunos que se tornaram professores do projeto. Temos instrutores que começaram a treinar ainda criança e hoje estão dando aulas em academias do Canadá e dos Estados Unidos. 

Que momento marcou você enquanto esteve envolvido com crianças carentes da comunidade de Varjão, de Brasília?

O meu aniversário, dia 8 de setembro de 2005, quinta-feira. Era de tarde e estava deitado no tatame após uma aula e iria esperar algumas horas para começar outra. Vi um dos meus alunos parando a bicicleta na porta do barracão onde dava as aulas, ele veio andando e em suas mãos tinha uma sacolinha de papel toda amassada. Quando chegou perto ele foi logo se desculpando dizendo que queria ter dinheiro para comprar um bom presente e dentro da sacola tinha a metade de um pão doce que ele me deu. Não consegui segurar as lágrimas. Após eu agradecer pelo presente ele subiu em sua bicicleta e foi embora sem saber que aquele simples ato marcou minha vida. 

E sobre o documentário produzido pela TV canadense Fight Network?

Nunca passou por minha cabeça que um dia iriam fazer um documentário falando de minha vida. O diretor Ravi Kumar me explicou que o fato de ter imigrado para o Canadá sem falar English e em poucos anos ser o dono de umas das maiores academias de jiu-jítsu do país, foi o que chamou a atenção em primeiro plano. Quando a equipe de TV foi analisar mais afundo minha história, descobriu que eu tinha sido campeão mundial, fisioterapeuta, trabalhado dois anos em UTI neonatal, tinha um projeto social, uma filha que adotei e o Magno, filho nascido no Canadá. O pessoal da equipe ficou surpreso e me falou que eu era muito novo e já tinha feito muitas coisas. No começo achei que os gringos estavam loucos, mas quando começamos as filmagens, que duraram quase 6 meses, percebi que o louco era eu (rsrs).

Desde quando você reside em Vancouver, no Canadá, e por que decidiu sair de Roraima?

Pisei pela primeira vez no Canadá em julho de 2009. Primeiramente tive uma decepção grande com o Governo, quando tentei trazer o meu projeto para Roraima. Apenas queria fazer algo para as crianças da cidade que amo da mesma forma que estava fazendo em Brasília, mas infelizmente tive as portas fechadas por motivos ridículos. Logo depois disso perdi um grande amigo em um acidente de carro e com isso fiz uma análise de minha vida e percebi que não estava feliz. Pedi demissão de meus dois empregos, vendi a parte da clínica que estava abrindo e comprei minhas passagens. 

Como foi se adaptar no Canadá?

O Canada é um país de primeiro mundo extremamente rico e Vancouver, que é a cidade onde moro, está a mais de 10 anos entre as cinco melhores cidades no mundo para se morar e também é a cidade mais quente do Canadá. Como ‘cabôco’, a única adaptação difícil foi viver sem paçoca, tambaqui e suco de cupuaçu.